quinta-feira, 15 de outubro de 2009



também sou vítima de sonhos adiados, de esperanças dilaceradas. Mas apesar disso, eu ainda tenho um sonho, pq a gente nao pode desistir da vida (né)... o meu medo era que vc se movesse rapidamente, desistir, pra mim é a única saída.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Eu sei que vou te amar

Você vai entrar pela porta que eu deixei entreaberta, há uma hora que eu não descolo os olhos da luz de neon do hall que se filtra como um prenúncio da tua chegada. Antes de você chegar você já chega com uma nuvem que vem na frente, antes de você chegar eu ouço tua ansiedade vindo, tua luz, teu som nas ruas, teu coração batendo mais forte porque vai me encontrar... Eu sei que minha presença te fará nervosa, tuas mãos ficam úmidas, sei que você se arrumou melhor para me ver, sabe dos vestidos que eu gosto, botou uma calcinha sexy por via das dúvidas, eu sei que você sabe que eu sei de tudo que você era e que teu único tesouro é o que eu não sei mais... mulher... por isso, teu peito dispara e você vem vindo pela rua sem ar, e você vem e você chega e entra quebrando o realismo da sala, quando você entra muda tudo, a casa fica diferente, as cadeira se movem, os vasos de rosa voam no ar, as mesas rodam, rodam e eu começo a perder o controle da minha solidão; sozinho eu me seguro, mas você chega e eu danço, pois você sabe de mil truques pra me jogar no abismo... você chega e o terrível perigo do Outro se desenha; você é um ponto de interrogação, uma janela aberta para o ar, um copo de veneno, você é o meu medo, o mar fica em ressaca, fico à beira do riso e das lágrimas, perto do céu e perto do crime, um relógio de briga começa a contar os segundos da luta, uma multidão de fantasmas de terno e gravata me assiste com o coração sangrando, perco o controle e entramos os dois num barco em alto-mar, à deriva...



Você me chamou por telefone. Não te vejo há três meses... seis anos juntos e agora sem te ver... pela tua voz no telefone sei que você está controlando uma emoção, querendo bancar o homem seguro de si... e fico desesperada porque mesmo assim você consegue fingir solidez e eu... e eu... ao ouvir tua voz, o mundo se acalma... tudo estava rodando e se acalma, minha casa estava cheia de perigos, as facas, os garfos me ameaçavam das gavetas, as agulhas, os remédios envenenados, os mosquitos e bichos voando nas janelas querendo me atacar e tua voz vem calma no telefone e eu sei que é mentira que você vive em pânico mas eu fico toda emocionada, fico toda menina, toda protegida com o falso tom de bondade sórdida que tua discriminação de homem prático assume... e tua voz vem do mundo dos altos, dos fortes e eu, mesmo sabendo dos perigos que esta paz me oferece, me arrumei toda para vir aqui ver você... penteei os cabelos negros que você ama, me pintei e então... tudo que se movia na casa se acalmou, pego um taxi e penso: “Tenho um homem”, e salto na rua, mexem comigo e penso: “Chamo meu homem. Ele te bate!”... Sei que você é um covarde mas mesmo assim... Desde menina que você já existia como uma nuvem no ar e subo confusa as escadas e entro em tua casa louca para procurar os vestígios das outras mulheres que te freqüentam.. e sei que você vai me receber sólido e filho da puta, e aos poucos vai me provar que você é o porto seguro e eu a galera enlouquecida, que eu sou a porra-louca e você a maravilha, eu sei, canalha, mas eu suportarei a humilhação para poder ver teus olhos e pensar: “Meu homem, meu homem, meu homem perdido e sempre eternamente meu homem”... e seu que conseguirei te desagregar pouco a pouco e que no fim da noite você estará caído feito um João-ningém entre pedaços de kriptonita e eu ajeitarei o batom, o salto alto e partirei vingada, pensando: “Dorme meu homem.. dorme my baby, that’s my boy”... e vou voltar sozinha pro mundo onde tudo gira feito um carnaval de arlequim e vou ficar infeliz feito nada... mas vou entrar... ficar normal... te olhar nos olhos... ficar normal... a porta está entreaberta... vou abrir... no horizonte vão nascer os olhos dele... quanto menos eu falar melhor...



Ela já está diante de mim há cinqüenta e cinco segundo e dois décimos... eu estou obsessivo com este negocio de dirigir filme de publicidade... sei quantos segundos gasto pra ir até a cozinha...


Os olhos dele nasceram... detrás dos olhos dele há outros olhos outros outros...


Ela está com um sorrisozinho maduro... na vitrola esta música ridícula que eu pus... Joan Baez... que absurdo...


Guantanamera, guajira guantanamera haha


Acho que ela conseguiu... não me ama mais... me superou... melhor assim... fico mais livre... sorriso calmo... me esqueceu... dancei... ótimo, chega de inferno... dois adultos...


Se ele pensa que vai me convencer que eu sou louca... coitado... quem terá jogado aquela almofada no chão?... Alguma vagabunda... comeu no chão, será? Joan Baez na vitrola... ele deve estar namorando alguma petista... dura, querida... quanto menos falar melhor...

_ Fala alguma coisa!

_Falar o quê?

segunda-feira, 7 de setembro de 2009


Olha que eu já acreditei na felicidade. Acreditava em missas dominicais, em primeira comunhão, em batizado, no céu e no inferno. Já acreditei em nós. No nosso amor. Veja só, eu já acreditei no amor. Hoje o que eu tenho são alguns poucos livros em uma estante de madeira, alguns mapas espalhados pela parede do quarto. Mapas que me dão a garantia de que queria estar em qualquer outro lugar, menos aqui. Eu já tive um pai. Ele se foi. Há exatos quinze anos ele se foi sem se despedir. Só queria poder dizer pra ele que ele fez e faz muita falta. Mas agora não dá mais. Já acreditei em vida após a morte. Hoje não acredito mais. Hoje me limito a acreditar nos livros da minha estante, nas palavras de alguns poucos amigos que me restaram, nos filmes que não me canso de rever e naqueles muitos que gostaria de assistir, mas não passam por aqui. Acredito muito pouco em tudo. Prometi para alguém ser mais otimista e ser menos incrédulo. Vou tentando. Não acredito no ser humano, pelo menos naqueles que querem ser acreditados. Talvez por isso meus melhores amigos se orgulham de não serem vencedores, não ostentam medalhas de honra ao mérito, bebam até de manhã e sempre estão metidos em confusão. Talvez por isso essa urgência de abrir a porta e sair correndo. Talvez por isso esse desespero vem me consumindo e eu não consigo dormir mais do que três horas por noite. Talvez por isso essa necessidade de falar, mesmo sem ser escutado.


Ficava parado, eu não percebia, mas já avançava a noite dentro daquela manhã de 33 graus e eu não percebia. E ficou de noite. Uma noite fresca. Saí andando bem devagar. Acabou a pressa, ao menos. Anteontem me elogiavam a ponto de me vulgarizar, elogiavam-me de todas as maneiras, eu desviava o olhar, e pensava barbaridades, como Mentex com suco de carambola, que me proibiram de tomar. Incautos. "Olha minha cara de preocupado", ele disse antes de tudo. Fabulosa. Era assim que eu estava quando a noite fresca chegou e me levou dali pra casa. "Fabulosa à toa", como diz Clarice com 'c'. Não fiz nem xixi, fiquei ali em pé durante todo o tempo. Não estava mesmo com vontade, mas isso me chamou atenção.

ANSIEDADE

Se chovesse mais eu diria que era um sinal, mas eu perdi a pretensão junto com o telefone daquela cardiologista que você disse que tinha dado um jeito no seu amigo. Há dias em que eu penso em me trancar em um estúdio de gravação, mandar um clássico, encher de grana, te dar muitos presentes e sumir. Assim, nada mais seria preciso: tantas histórias de ursos, tanta bebida pra dentro e pra fora, tantas calçadas com buracos. Calçadas que me engolem e engasgam.



Paixão é pra disfarçar solidão
Tão cheia de aflição
Que podia ser uma afta
Tão ácida na boca
Tão ácida tão flácida a morte
Tão diferente.
Assim sozinha lembro você dizendo:
_ não se faça de difícil. É uma gargalhada feral.
Uma menina se matou. Tava de saco cheio.
Meu amor não pintou.
É... o palhaço entra em cena de qualquer maneira arrepia!

Ciclo vicioso

É sempre assim, começo a gostar de uma única música. Fico a ouvi-lá repetidas vezes insistentemente. Este é o sintoma. Depois vem os primeiros encontros e uma vontade louca de chorar que é mais ou menos sufocada. E é claro, por fim o amor, que só começa depois que tudo acaba.