segunda-feira, 7 de setembro de 2009


Olha que eu já acreditei na felicidade. Acreditava em missas dominicais, em primeira comunhão, em batizado, no céu e no inferno. Já acreditei em nós. No nosso amor. Veja só, eu já acreditei no amor. Hoje o que eu tenho são alguns poucos livros em uma estante de madeira, alguns mapas espalhados pela parede do quarto. Mapas que me dão a garantia de que queria estar em qualquer outro lugar, menos aqui. Eu já tive um pai. Ele se foi. Há exatos quinze anos ele se foi sem se despedir. Só queria poder dizer pra ele que ele fez e faz muita falta. Mas agora não dá mais. Já acreditei em vida após a morte. Hoje não acredito mais. Hoje me limito a acreditar nos livros da minha estante, nas palavras de alguns poucos amigos que me restaram, nos filmes que não me canso de rever e naqueles muitos que gostaria de assistir, mas não passam por aqui. Acredito muito pouco em tudo. Prometi para alguém ser mais otimista e ser menos incrédulo. Vou tentando. Não acredito no ser humano, pelo menos naqueles que querem ser acreditados. Talvez por isso meus melhores amigos se orgulham de não serem vencedores, não ostentam medalhas de honra ao mérito, bebam até de manhã e sempre estão metidos em confusão. Talvez por isso essa urgência de abrir a porta e sair correndo. Talvez por isso esse desespero vem me consumindo e eu não consigo dormir mais do que três horas por noite. Talvez por isso essa necessidade de falar, mesmo sem ser escutado.


Ficava parado, eu não percebia, mas já avançava a noite dentro daquela manhã de 33 graus e eu não percebia. E ficou de noite. Uma noite fresca. Saí andando bem devagar. Acabou a pressa, ao menos. Anteontem me elogiavam a ponto de me vulgarizar, elogiavam-me de todas as maneiras, eu desviava o olhar, e pensava barbaridades, como Mentex com suco de carambola, que me proibiram de tomar. Incautos. "Olha minha cara de preocupado", ele disse antes de tudo. Fabulosa. Era assim que eu estava quando a noite fresca chegou e me levou dali pra casa. "Fabulosa à toa", como diz Clarice com 'c'. Não fiz nem xixi, fiquei ali em pé durante todo o tempo. Não estava mesmo com vontade, mas isso me chamou atenção.

ANSIEDADE

Se chovesse mais eu diria que era um sinal, mas eu perdi a pretensão junto com o telefone daquela cardiologista que você disse que tinha dado um jeito no seu amigo. Há dias em que eu penso em me trancar em um estúdio de gravação, mandar um clássico, encher de grana, te dar muitos presentes e sumir. Assim, nada mais seria preciso: tantas histórias de ursos, tanta bebida pra dentro e pra fora, tantas calçadas com buracos. Calçadas que me engolem e engasgam.


Paixão é pra disfarçar solidão
Tão cheia de aflição
Que podia ser uma afta
Tão ácida na boca
Tão ácida tão flácida a morte
Tão diferente.
Assim sozinha lembro você dizendo:
_ não se faça de difícil. É uma gargalhada feral.
Uma menina se matou. Tava de saco cheio.
Meu amor não pintou.
É... o palhaço entra em cena de qualquer maneira arrepia!

Ciclo vicioso

É sempre assim, começo a gostar de uma única música. Fico a ouvi-lá repetidas vezes insistentemente. Este é o sintoma. Depois vem os primeiros encontros e uma vontade louca de chorar que é mais ou menos sufocada. E é claro, por fim o amor, que só começa depois que tudo acaba.



terça-feira, 1 de setembro de 2009

menina que me nina


Você vai me seguir
Aonde quer que eu vá
Você vai me servir
Você vai se curvar
Você vai resistir
Mas vai se acostumar
Você vai me agredir
Você vai me adorar
Você vai me sorrir
Você vai se enfeitar
E vem me seduzir
Me possuir, me infernizar
Você vai me trair
Você vem me beijar
Você vai me cegar
E eu vou consentir
Você vai conseguir
Enfim, me apunhalar
Você vai me velar
Chorar, vai me cobrir
E me ninar