quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Eu sei que vou te amar

Você vai entrar pela porta que eu deixei entreaberta, há uma hora que eu não descolo os olhos da luz de neon do hall que se filtra como um prenúncio da tua chegada. Antes de você chegar você já chega com uma nuvem que vem na frente, antes de você chegar eu ouço tua ansiedade vindo, tua luz, teu som nas ruas, teu coração batendo mais forte porque vai me encontrar... Eu sei que minha presença te fará nervosa, tuas mãos ficam úmidas, sei que você se arrumou melhor para me ver, sabe dos vestidos que eu gosto, botou uma calcinha sexy por via das dúvidas, eu sei que você sabe que eu sei de tudo que você era e que teu único tesouro é o que eu não sei mais... mulher... por isso, teu peito dispara e você vem vindo pela rua sem ar, e você vem e você chega e entra quebrando o realismo da sala, quando você entra muda tudo, a casa fica diferente, as cadeira se movem, os vasos de rosa voam no ar, as mesas rodam, rodam e eu começo a perder o controle da minha solidão; sozinho eu me seguro, mas você chega e eu danço, pois você sabe de mil truques pra me jogar no abismo... você chega e o terrível perigo do Outro se desenha; você é um ponto de interrogação, uma janela aberta para o ar, um copo de veneno, você é o meu medo, o mar fica em ressaca, fico à beira do riso e das lágrimas, perto do céu e perto do crime, um relógio de briga começa a contar os segundos da luta, uma multidão de fantasmas de terno e gravata me assiste com o coração sangrando, perco o controle e entramos os dois num barco em alto-mar, à deriva...



Você me chamou por telefone. Não te vejo há três meses... seis anos juntos e agora sem te ver... pela tua voz no telefone sei que você está controlando uma emoção, querendo bancar o homem seguro de si... e fico desesperada porque mesmo assim você consegue fingir solidez e eu... e eu... ao ouvir tua voz, o mundo se acalma... tudo estava rodando e se acalma, minha casa estava cheia de perigos, as facas, os garfos me ameaçavam das gavetas, as agulhas, os remédios envenenados, os mosquitos e bichos voando nas janelas querendo me atacar e tua voz vem calma no telefone e eu sei que é mentira que você vive em pânico mas eu fico toda emocionada, fico toda menina, toda protegida com o falso tom de bondade sórdida que tua discriminação de homem prático assume... e tua voz vem do mundo dos altos, dos fortes e eu, mesmo sabendo dos perigos que esta paz me oferece, me arrumei toda para vir aqui ver você... penteei os cabelos negros que você ama, me pintei e então... tudo que se movia na casa se acalmou, pego um taxi e penso: “Tenho um homem”, e salto na rua, mexem comigo e penso: “Chamo meu homem. Ele te bate!”... Sei que você é um covarde mas mesmo assim... Desde menina que você já existia como uma nuvem no ar e subo confusa as escadas e entro em tua casa louca para procurar os vestígios das outras mulheres que te freqüentam.. e sei que você vai me receber sólido e filho da puta, e aos poucos vai me provar que você é o porto seguro e eu a galera enlouquecida, que eu sou a porra-louca e você a maravilha, eu sei, canalha, mas eu suportarei a humilhação para poder ver teus olhos e pensar: “Meu homem, meu homem, meu homem perdido e sempre eternamente meu homem”... e seu que conseguirei te desagregar pouco a pouco e que no fim da noite você estará caído feito um João-ningém entre pedaços de kriptonita e eu ajeitarei o batom, o salto alto e partirei vingada, pensando: “Dorme meu homem.. dorme my baby, that’s my boy”... e vou voltar sozinha pro mundo onde tudo gira feito um carnaval de arlequim e vou ficar infeliz feito nada... mas vou entrar... ficar normal... te olhar nos olhos... ficar normal... a porta está entreaberta... vou abrir... no horizonte vão nascer os olhos dele... quanto menos eu falar melhor...



Ela já está diante de mim há cinqüenta e cinco segundo e dois décimos... eu estou obsessivo com este negocio de dirigir filme de publicidade... sei quantos segundos gasto pra ir até a cozinha...


Os olhos dele nasceram... detrás dos olhos dele há outros olhos outros outros...


Ela está com um sorrisozinho maduro... na vitrola esta música ridícula que eu pus... Joan Baez... que absurdo...


Guantanamera, guajira guantanamera haha


Acho que ela conseguiu... não me ama mais... me superou... melhor assim... fico mais livre... sorriso calmo... me esqueceu... dancei... ótimo, chega de inferno... dois adultos...


Se ele pensa que vai me convencer que eu sou louca... coitado... quem terá jogado aquela almofada no chão?... Alguma vagabunda... comeu no chão, será? Joan Baez na vitrola... ele deve estar namorando alguma petista... dura, querida... quanto menos falar melhor...

_ Fala alguma coisa!

_Falar o quê?

4 comentários:

Guiga disse...

caralho!

Veridianna Queiroz disse...

eu sei que você sabe que eu sei de tudo que você era e que teu único tesouro é o que eu não sei mais... mulher... por isso, teu peito dispara e você vem vindo pela rua sem ar, e você vem e você chega e entra quebrando o realismo da sala

Veridianna Queiroz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernanda disse...

ei, que foda! chego na 5a e fico até domingo. quero te rever e te parabenizar pessoalmente pela quebradera!...